Burnout das redes, posicionamento político e contratos com marcas
Antes de se posicionar politicamente nas redes, leia o contrato de publicidade. Veja quais cláusulas podem te limitar e como pensar no público cansado de briga.
Chegar em casa e só querer um meme
Você passou mais de seis horas trabalhando, chegou em casa com a cabeça no modo economia de energia e abriu o celular só para ver algo leve. Em vez disso, apareceu alguém acordando às cinco da manhã, com treino feito, marmita perfeita e a casa em tons neutros. Dois vídeos depois, alguém brigando por causa de política.
Se bateu uma vontade de largar tudo, tem muita gente no mesmo barco. Essa semana li um artigo no Youpix que explica bem esse comportamento recente de quem usa as redes, e ele conversa direto com o momento que a gente está vivendo: eleição, polarização e contratos com marcas.
O cansaço de uma vida perfeita
Desde 2021, a gente viu crescer a tendência do lifestyle: rotinas extensas, perfis extremamente estéticos, uma perfeição exagerada. Muita gente desejou esse estilo de vida, e até um perfil assim, por bastante tempo. Só que, de uns tempos para cá, isso virou algo rejeitável.
Olhando para a realidade brasileira, o motivo é fácil de entender. É um perfil inalcançável. Quem trabalha mais de seis horas por dia e chega em casa cansado ainda teria de dar conta da academia, da alimentação saudável e perfeita todo dia, de um perfil totalmente estético. Isso dá trabalho e desgasta.
Houve também o efeito da quantidade. Com tantos perfis estimulando uma vida perfeita e extremamente ativa, parte da própria geração acabou sobrecarregada. Em um vídeo da Da Vinci sobre marcas e marketing, vi que a nova tendência é a rebeldia: ficar fora da tendência e cultuar o oposto daquela vida pró-saúde e pró-atividade exacerbada. As pessoas, de fato, estão cansadas de tanta informação.
Quando a eleição entra nesse caldo
Esse cansaço conversa com o momento atual. Estamos perto do segundo turno e, há alguns meses, entramos na guinada da propaganda eleitoral, num cenário politicamente muito polarizado. As pessoas estão cansadas de ver briga, intriga e desrespeito, e também de ser contrariadas.
Imagina a cena: você passou anos estimulada por uma sociedade hiperativa e agora cultua o oposto, longe das redes, quase uma rebelde. Ao mesmo tempo, encontra gente te contrariando, te desrespeitando e, muitas vezes, empurrando goela abaixo uma ideia que você nem está a fim de ouvir. Você só quer chegar em casa e curtir coisa leve, assunto interessante e, quem sabe, um meme.
Posicionar-se pode, mas o público também conta
Eu não sou contra posicionamento político e nem contra determinadas tendências. Acho, inclusive, que uma das coisas que mais precisamos valorizar é a criatividade individual de cada um.
Só que, quando a gente trabalha nesse mercado, não dá para pensar somente em si, porque isso seria egoísmo. Existe o público com quem a gente trabalha, que garante não só a nossa companhia nas redes, mas também valoriza o nosso trabalho. Vale para quem é influenciadora e vale para quem é usuário comum.
Por isso, está tudo bem se posicionar politicamente, desde que de forma saudável e olhando para o seu mercado de trabalho. Convenhamos, as marcas não estão muito interessadas nos seus valores pessoais. E o público, em pleno burnout das redes, também pode não acolher o seu comportamento, dependendo de como você fizer.
Antes de postar, leia o contrato
Antes mesmo de se posicionar, olhe para os seus contratos de publicidade. Veja se existe alguma cláusula que te impeça de se manifestar, se há alguma multa prevista e se aquilo pode, lá na frente, causar um efeito rebote que você não esperava.
E o rebote nem sempre vem de as pessoas deixarem de gostar de você por causa da sua opinião política. Muitas vezes ele vem da forma como você se posiciona.
Na hora de ler, procure principalmente por estas cláusulas:
Se o contrato proíbe, existe jeito sutil
Se o seu contrato proibir a associação a um candidato específico, ou até um posicionamento político direto, vale procurar formas mais sutis de se posicionar. As pessoas entendem as entrelinhas. Você não precisa ser direta, e às vezes dá para se posicionar de maneira pontual, sem prejudicar a sua credibilidade diante das parcerias e do público.
Sutil, aqui, não quer dizer driblar o que você assinou. Se a cláusula for ampla ou deixar dúvida, vale conversar com a marca ou com quem cuida dos seus contratos antes de postar.
A conta que precisa fechar envolve vários lados: os seus valores, a sua criatividade, a sua autenticidade, as pessoas com quem você vai compartilhar isso, a forma como vai fazer, e as marcas e pessoas que confiam no seu trabalho e acreditam no seu potencial. Dá para caber de tudo um pouco, mas isso precisa ser visto antes.
Antes de postar, o contrato decide o jeito de se posicionar
A eleição passa, os compromissos ficam
Daqui a pouco o segundo turno acaba, e o feed volta a ser o lugar onde alguém, depois de um dia longo, só quer rir de um meme. Espero de verdade que você tenha uma ótima eleição e que o seu posicionamento, seja ele qual for, não vire um problema lá na frente, nem para você e nem para as suas parcerias.
Porque a eleição passa e os nossos compromissos ficam.
Releia o contrato, escolha com cuidado o jeito de falar e depois, sim, vá ver os memes.
Fontes
- A eleição veio pra fadigar ainda mais nosso burnout das redes, Gabriel Paes, Youpix
- Cláusulas morais em contratos de influenciadores digitais, Migalhas
- Cláusulas morais: entre a reputação da marca e a liberdade individual, Migalhas
- Eleições 2026: o que é permitido e proibido na propaganda eleitoral pela internet, MPF
- Influenciadores podem ser punidos nas eleições de 2026, Jornal Opção
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